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Tô gorda!

Quando eu era pequena, participei de uma reunião com algumas mulheres do meu bairro junto com a minha mãe. Nessa reunião, elas estavam vendendo pijamas e além de roupas para mulheres adultas, tinham roupas para as crianças. Conforme o evento foi acontecendo, várias mulheres se vestiam com essas roupas e faziam uma espécie de desfile, e a dona da marca perguntou se eu queria desfilar com uma camisolinha que eu tinha ficado apaixonada. Todas que se dispunham a “desfilar” com as roupas, ganhavam as mesmas e comigo não seria diferente. Eu era muito tímida na época e disse que não. Ela insistiu, e não por maldade, mas porque sabia que eu tinha adorado a camisolinha rosa, e eu disse “Não vou desfilar porque tô gorda!” O que eu quis dizer com essa frase? Que era pra ela parar de insistir, e a forma que encontrei foi essa. Eu achei que ela entenderia, já que falar que estar gorda é sinônimo de inadequação no vocabulário dos adultos. Não me lembro ao certo quantos anos eu tinha, mas não tinha completado nem a primeira década de vida. Enfim, mesmo sem desfilar acabei levando pra minha casa a camisolinha rosa de cetim. Fiquei radiante.

 

Quantas vezes você já ouviu alguma pessoa tentando ofender a outra usando algum argumento que leva em consideração o corpo? “Sua gorda!” “Baleia!” “Magrela!” “Quem gosta de osso é cachorro!” Obviamente, quem é gordo sofre muito mais, afinal ser magro, ainda é elogio pra muita gente.

 

Esses dias estava no vestiário da academia e não sou daquelas que faz amizade com o pessoal fitness nem nada. Saio da piscina, tomo meu banho, arrumo minhas coisas, dou um tchauzinho e vou embora. Mas nesse dia a conversa de algumas mulheres me chamou a atenção. Uma adolescente, muito nova entrou no vestiário, se trocou e logo saiu pra fazer a aula dela. Entrou muda e saiu calada, mas isso não impediu que todas começassem a falar “Meu Deus, menina! Se eu tivesse esse corpinho eu jamais estaria aqui!” uma outra já logo disse “Ela precisa é ganhar massa, isso sim!” Em menos de 30 segundos a garota foi bombardeada por comentários. Ou seja, de qualquer jeito o corpo dela estava inadequado. Estava errada por ir à academia mesmo sendo muito magra e errada por ser muito magra e precisar ganhar massa para ficar mais cheinha, como muita gente gosta de dizer. Nunca está bom.  A menina, muito sem graça percebendo que seria alvo de mais comentários constrangedores, deu um sorrisinho amarelo e saiu rapidamente do vestiário. Não sei se isso a afetou de alguma forma ou se ela lida bem com pessoas invadindo a privacidade dela. Eu, respirei fundo e pensei: “Fica quieta, Daniela, não fala nada porque isso não é da sua conta!”, saí do vestiário, entrei no carro, mas vim para casa pensando no que tinha acontecido lá dentro.

 

Qual seria o motivo daquela menina não precisar ir à academia? O fato de ser magra? Quando eu falo pra vocês que comentários sobre nosso corpo ou nossa saúde, na maioria das vezes, não são genuínos é isso que eu digo. O que será que elas teriam dito para uma adolescente gorda? Que ela realmente estava certa de estar na academia para de alguma forma tentar acabar com a inadequação do corpo dela? Não sei! Mas refleti muito sobre esse assunto e resolvi escrever.

 

Todo mundo sabe que os padrões de beleza vão sofrendo mutações com o passar do tempo, mas isso não faz com que as pessoas questionem se o que hoje é bonito talvez seja feio daqui dez anos. Pensem em um intervalo dos anos 90 e hoje. Quem era linda? As modelos magérrimas, e hoje? As magras (mas não tão magras assim), com tanquinho. Aqui não entra só a estética, mas a forma como somos manipulados e acabamos acreditando que realmente devemos modelar o nosso corpo de acordo com o que a mídia e a sociedade dizem que é adequado e aceito.

 

O que a gente pode entender com todas essas reflexões? Será que aquela menina da academia que foi bombardeada de comentários—não solicitados—sobre o corpo dela é magra mesmo porque é o biotipo dela, e está indo para a academia para movimentar o corpo, ou ela vai para academia para compensar aquilo que comeu no final de semana, e é como eu, quando criança, que já tinha aprendido que um corpo gordo era um corpo inadequado e não deveria ser mostrado na frente de outras pessoas? Será que esses comentários entraram por um ouvido e saíram pelo outro, ou quando ela chegou em casa ela começou a encanar com o peso dela e o de outras pessoas ao redor? Será que ela vai questionar se realmente precisa ir à academia e cuidar da saúde não é importante? Ou um outro extremo, será que se essa menina tiver um transtorno alimentar, os comentários não serviram como um trampolim para ela ir mais alto e continuar fazendo o que faz para ficar magra a qualquer custo?

 

Por que só o gordo precisa ir para a academia? Por que aquelas mulheres assumiram que a menina é saudável e não precisava estar ali? E o que a gente pode fazer a respeito quando ouvir pessoas invadindo a privacidade alheia? Se você é a pessoa que faz o comentário, repense! Um corpo gordo não é sinônimo de desleixo e falta de saúde, assim como um corpo magro não é sinônimo de saúde e cuidado. Agora se você é a pessoa que está ouvindo um comentário diretamente sobre você ou o ouvinte (como eu), não seria bacana dar um toque (educadamente) para a pessoa? Falo sobre um toque educado, pois ninguém se dispõe a ouvir quando é atacado. Estou fazendo essa reflexão junto com você para saber o que fazer sobre isso numa próxima vez que ouvir algo do tipo.

 

Nosso corpo é o nosso instrumento para viver a vida e não um manequim que deve estar sempre lindo e maravilhoso para encher os olhos das outras pessoas. Sejamos mais cautelosos com aquilo que falamos. As pessoas se sentem no direito de opinar sobre o corpo de alguém que nunca viram na vida. “O corpo é meu e quem cuida dele sou eu!” As vezes dá vontade de falar isso, mas há diversas formas de abordar o assunto. Precisamos parar de nos meter na vida alheia. O nosso corpo é um assunto íntimo e comentários só deveriam ser falados quando solicitados. A saúde mental das pessoas está em jogo, algo que anda cada vez mais frágil nos dias de hoje. A gente não pode achar que um comentário desses é sempre bem-intencionado. Não sabemos absolutamente nada a respeito das pessoas, por isso tenhamos mais cuidado com as palavras, elas podem machucar e mudar completamente a relação que as pessoas têm com a alimentação e o próprio corpo.

 

Gostaria que a Daniela do passado não tivesse aprendido que um corpo gordo é sinônimo de inadequação, mas tenho esperança de que as coisas possam mudar. E elas mudam! Através de conversas, reflexões e desconstrução de padrões que são construídos de forma cruel e inadequada até na cabecinha de crianças. Pode ser assustador, mas esse assunto é responsabilidade de todos.

 

E você? Já ouviu algum comentário que mudou a forma como você se enxergava?

 

Até mais,

 

Daniela

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2 comments

  1. Camila

    Puxa vida esse texto é tão real.
    Eu também tenho esperanças de que de alguma forma essa cultura do “corpo perfeito” e do “do livre julgamento alheio” mude!

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